Espírito do carnaval reaparece no Rio com expressão na avenida do sentimento e da revolta do povo

Notícia publicada dia 13/02/2018

Tamanho da fonte:

A Escola de Samba carioca Paraíso do Tuiuti causou surpresa e sensação no desfile carioca. Até a Globo, com sua cobertura cheia de detalhes, ficou sem saber o que fazer e deixou clara sua parcialidade a favor do governo e do roubo de direitos dos trabalhadores.

Os desfiles luxuosos, com fantasias e alegorias caras, acessíveis só a endinheirados relegou o povo a empurrar os carros alegóricos gigantescos e a assistir a tudo da arquibancada ou na TV. Para muitos, acabou o carnaval popular, que punha o povo na avenida e expressava suas preocupações e mazelas. Popular nos últimos anos, só os blocos.

Mas a Tuiuti sacudiu a poeira. Seu desfile mexeu na ferida exposta do Brasil atual. Levou à avenida um presidente vampiro assaltante de direitos de um povo sofrido, que ainda convive com os efeitos de séculos de escravidão.

O enredo centrou nos 130 anos da Lei Áurea. Mas foi muito além ao atualizar espetacularmente a escravidão que persiste com outra roupagem. Um bom texto circulou nas redes sociais dando conta disso, veja abaixo:

“A Paraíso do Tuiuti entrou na avenida com um visual impactante desde o carro abre-alas. Com fantasias de fácil leitura e requinte e enredo engajado, foi conquistando a simpatia do público ao longo de seu cortejo. A comissão de frente, do coreógrafo Patrick Carvalho, conquistou o público com um truque simples, em que pretos velhos se transformavam em escravos. A ótima bateria de Mestre Ricardinho valorizou ainda mais o samba-enredo, defendido com muita garra pelos intérpretes Nino do Milênio, Grazzi Brasil e Celsinho Mody -os dois últimos, reforços vindos do Carnaval de São Paulo. O último setor, elaborado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos para protestar contra a redução dos direitos trabalhistas, arrebatou o público com fantasias em que carteiras de trabalho apareciam rasgadas e patinhos da Fiesp batiam panelas manipulados com marionetes. Um vampiro representou o presidente Michel Temer no último carro. De virtual rebaixada, a escola de São Cristóvão saiu da avenida aclamada.”

Já o UOL realçou o baile que a Rede Globo levou, com o texto “Globo demora 12 horas para perceber que Vampiro Neoliberalista na Sapucaí era Temer”. Veja o texto abaixo:

Na era das redes sociais, nada passa despercebido. Muita gente que assistiu ao desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti na Sapucaí manifestou via Twitter e Facebook que faltaram comentários e até legendas mais precisas, por parte dos narradores e apresentadores responsáveis pela transmissão na Globo, sobre as informações trazidas pela escola.

Quem era, afinal, o “vampiro neoliberalista” que ostentava a faixa presidencial? Quem? Ninguém na tela da Globo mencionou seu nome durante a transmissão.

Ainda no “Bom Dia Brasil”, nada de identificá-lo. Só lá pelas 13h15, durante o “Jornal Hoje”, mais de dez horas depois do desfile, o jornalismo da Globo, sempre tão ávido pela informação em primeira mão, associou o vampiro da Paraíso ao presidente Michel Temer.

O delay em relação às rede sociais e a outros noticiários foi gritante. Também no “Hoje”, o pato presente no desfile foi finalmente associado à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Eis aí outra informação que não apareceu nem durante o desfile nem no “Bom Dia Brasil”. O didatismo na Globo não costuma falhar, ao contrário, normalmente é até cansativo. Mesmo assim, supondo que a remissão fosse óbvia, faltou lembrar que o bichinho serviu como ícone da Fiesp nas manifestações pelo impeachment de Dilma.

Já as camisetas da seleção, igualmente associadas ao impeachment e apresentadas no desfile lado a lado com as mãos manipuladoras da opinião pública, sequer foram notadas em seu contexto pró-impeachment. Fátima Bernardes foi a única a mencionar a presença da carteira de trabalho como objeto “de defesa dos direitos trabalhistas”. E isso foi tudo sobre o documento de capa azuladinha reproduzido em tamanho gigante próximo ao “Vampiro Neoliberalista”. Menção à reforma trabalhista operada no governo do personagem em questão? Zero!
Mas, pior que tudo isso foi ver que as críticas expostas na avenida passaram batido pelas entrevistas feitas por Alex Escobar e Fátima Bernardes no estúdio, pós-desfile.

Conversas nesse contexto sempre caem na mesmice de “quem tem samba no pé” e nas “emoções de cruzar a avenida”, blá- blá-blá. Quando o entrevistado de fato parece ter o que dizer, os entrevistadores não lhe perguntam nada a respeito.

Compartilhe agora com seus amigos